Instruções para evitar o odor dos mendigos de São Paulo

3 ago

Quanto mais cedo, pior, difícil entender porquê – mas é assim. Pela manhã, cedinho, o odor dos mendigos atinge os níveis mais críticos da fetidão humana. Talvez não seja verdade e o que acontece é que o cheiro do nosso próprio corpo recém banhado e coberto de camadas de cremes, desodorantes e loções, contraste injustamente com o odor do corpo cru, coberto de camadas de mal-cuidados.

De qualquer maneira, não é tão difícil evitar a penetração indevida do mencionado odor, basta estar atento às instruções que se seguem.

Primeiro, suponhamos que o encontro vá dar-se em uma calçada entre indivíduos que seguem em direções opostas. Mas não se preocupe, para o caso de que andem na mesma direção ou que um deles esteja parado, bastam algumas adequações; o processo torna-se mais complicado, mas ainda realizável. Pois bem, em seguida calcule mentalmente quantos segundos restam antes do indesejado encontro. Muita atenção para a velocidade dos corpos em movimento, que se somam em direções opostas. Quando restarem exatos três segundos para os corpos e os odores se chocarem, inspire uma última golfada de ar puro, sem exageros, para que suas bochechas não inflem demasiado e denunciem a prática dessas instruções. Segure a respiração e espere o mendigo passar por você. Concentre-se em evitar respirar. Falta pouco.

Após o encontro, já tendo passado o mendigo, aguarde de três a cinco segundos antes de respirar, ou o máximo que conseguir. O cheiro dos mendigos impregna o ar por vários segundos, você sabe. Não pare de andar, para ganhar distância. Agora vem a dica mais importante: exale todo, mas todo o ar mesmo, antes de inspirar novamente. Não se esqueça de nenhuma partícula, nenhum átomo perdido em suas narinas, esvazie suas fossas nasais completamente.

Qualquer esquecimento, por menor que seja, pode resultar em que odor penetre em seu corpo e sua alma, comprometendo a porção de ar puro que lhe é cabida e instalando-se inexoravelmente em sua memória.

irreversível

12 jul

1992. Eu comprei esse presente pra sua irmã, mas resolvi dar pra você.

2001. Você não é a mulher mais bonita que eu já fiquei, mas eu quero ficar com você.

2005. Você sabe que te amo, por isso te peço: pare com isso, me deixe viver.

2011. Eu adoro você, mas eu não sinto isso.

respostas ao ciclista

16 jun

“você acha bonito andar de bicicleta porque não passa pelo jardim ângela nem tem que lavar roupa à mão”

“são paulo tem 12 milhões de carros, é? pena que nenhum deles tá na minha garagem”

Novos framentos no mapa

a cidade dos outros

12 jun

A gente comum vivem em gaiolas o dia todo. Gaiola-casa, gaiola-escritório, gaiola-shopping-center.

 

Eles, os outros, é que conhecem a cidade de verdade. Sabem qual é a textura do asfalto na sola dos pés, conhecem cada cruzamento e cada edifício pelo cheiro, pelo ruído que em seus ouvidos vira música. Sabem como é que a temperatura das calçadas varia no decorrer do dia e conseguem distinguir na face dura da gente comum de onde vêm e para onde vão.

 

Eles, os outros, é que são os verdadeiros paulistanos.

sexta-feira 13

21 maio

Agora há pouco fechei meus olhos e tentei me lembrar de como é a sua testa. Olhos, sobrancelha, testa, cabelo. Percebo logo que você para mim não é um, mas dois. A imagem que me vem mais forte é a da testa envelhecida, cabelos brancos esticados pra trás, presos, olhos azuis  (estarei certa? não serão verdes?) – tem algo de familiar, mas sinto em seu olhar vazio que não me reconhece. Tento me lembrar do outro, o homem mais jovem, aquele com quem de fato convivi, mas a imagem não é nítida.

O vazio daqueles olhos permanence vivo na memória quando os meus se abrem.

fechado para pedestres

10 maio

– mundo pequeno, né?
[merda. eu devia ter saído mais tarde.]

– pois é.
[merda. a outra tinha que morar aqui perto? é por isso que as pessoas mudam de bairro, maurício.]

– sabe, eu gosto muito de você e queria que você ficasse bem.
[é constrangedor te encontrar.]

– sei. [ahãn, cláudia, senta lá] eu não gosto muito de você, no momento.
[eu te odeio com todas as células do meu corpo e acho que você devia ter a decência de morrer ou, no mínimo, desaparecer.]

– eu sei.

verde. seguem adiante.

ex

24 abr

meu exílio

meu ex isto        ex

aquilo

meu ex filho

meu trans        ex tranquilo

[p. leminski]